Para ouvir música, chame a polícia!

Um tambor e uma flauta. Assim começou, há quase 200 anos, o serviço musical da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Para além da tradicional função das bandas militares – marcar a cadência da marcha e levantar o moral da tropa –, a música na polícia acompanhou a evolução dos tempos, e hoje serve de elo de ligação entre a corporação e a sociedade.

Banda da PM se apresenta no Viradão Cultural 2009

Quando o major Antonio Carlos Rosa serviu o Exército, teve a oportunidade de sentir na pele o que é a música em uma instituição militar. "Tínhamos que fazer uma longa caminhada - de uns 24 quilômetros - com todo o equipamento nas costas. No final, estava todo mundo cansado. Mas, ao entrar no quartel, a banda estava nos esperando, e começou a tocar aqueles dobrados enérgicos. Em momentos como esse, a postura do militar muda: barriga pra dentro, peito pra fora, ele se ergue, arruma a farda e entra realmente pisando forte. Ele encontra forças dentro de si", recorda.

Segundo o major, esse é o objetivo de qualquer banda militar. E ele entende do assunto, pois é o maestro e comandante da Companhia Independente de PM Músicos do Rio de Janeiro (CIPMMus), responsável por todo o serviço musical da instituição, quase tão antigo quanto ela própria.

"Sou servido mandar adicionar à organização da Divisão Militar da Guarda Real de Polícia desta Côrte, que houve crear pelo meu Decreto de 13 de Maio de 1809, um Tambor-mor da Divisão e um pífaro em cada uma das três companhias de infantaria (...)."1. Com essas palavras, o príncipe-regente Dom João VI criava, em 1810 – um ano após a criação da própria Guarda Real, antigo nome da PMERJ -, a primeira banda militar do país.

A partir daí, gradualmente foram se inserindo mais elementos na banda, que, ao longo da história, mudou de nome, maestros, instrumentos e até de missão.

O major e maestro da Companhia Independente de Polícia Militar - Músicos: Antonio Carlos RosaPolícia -> Música -> Sociedade

Hoje, o serviço musical da Polícia Militar cumpre um papel que vai muito além da tradição militar de marcar o passo e inflar os ânimos com que começou. "Hoje temos sete bandas tipo 'C' (tradicional banda militar), uma big band e uma banda sinfônica. A sociedade e a polícia evoluíram muito de 200 anos pra cá e nós acompanhamos essa evolução. E, é claro, o papel da banda acompanhou essa evolução", diz o maestro.

Em 2006, com o aprimoramento e a inserção do conceito de relações públicas na corporação, a então Companhia de Músicos da PM foi renomeada como Companhia Independente de Polícia Militar – Músicos. "Hoje, nossa missão é criar um liame com a sociedade", diz o major Carlos.

Além do repertório para todos os gostos – choros, sambas, jazz, clássico, dobrados e marchas -, também são variadas as atividades sociais desenvolvidas pelo CIPMMus, que vão muito além do atendimento a solenidades militares e civis.

Banda nas escolas

Um dos projetos é o Banda nas Escolas, que visa a despertar nos alunos da rede privada e pública de ensino o interesse pela música, além do amor à pátria. "A nossa proposta é irmos às escolas, cantarmos o Hino Nacional, hastearmos a bandeira, e depois as crianças irem para a sala de aula ao som das músicas da banda. Isso é bom também porque é um primeiro contato desse público infantil com a instituição policial militar – um contato positivo", afima.

Lucy de Oliveira, coordenadora da Escola Faetec de Quintino, em carta enviada à PM para agradecer a visita da banda a sua escola, faz uma reflexão: "A PM está na ponta agindo na violência e muitas vezes com violência. Acertando, errando e deixando também o caminho marcado com o sangue de seus homens. O lado lúdico, artístico e de sonho da PM nós vimos e ouvimos hoje. Não foi surpresa, o que de fato nos surpreendeu foi a integração com o público".

O serviço musical da PM também desenvolve outros projetos com enfoque social, tendo sempre em conta o princípio de "integração com o público" citado por Lucy. O Banda nos Shoppings divulga o bom repertório popular e erudito em locais de grande circulação de pessoas; o Banda nos Asilos, que leva música de qualidade para asilos de velhinhos; o Projeto Oficina de Música, que oferece conhecimentos musicais teóricos e práticos para jovens filhos de policiais militares e das comunidades próximas aos batalhões. "Isso também tem outro lado positivo, que é trazer a comunidade para dentro do quartel. Estamos pensando agora em levar o projeto para dentro das próprias comunidades", conta o maestro.

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) também têm utilizado o serviço musical como aliado Alunos da Oficina de Músicosdo seu trabalho. No morro Santa Marta, em Botafogo, os músicos da PM fizeram uma apresentação em conjunto com o Afroreggae e o grupo Exaltasamba. "As pessoas adoraram. Depois disso, recebemos vários convites para realizar bailes lá para eles. Você pode imaginar o valor disso para o trabalho do 2° Batalhão no Santa Marta? A música tem esse poder", observa Rosa.

O maestro afirma que hoje há um processo de aproximação da polícia com a sociedade, e que a música serve como facilitadora. "Enquanto a polícia está realizando o seu trabalho que, pela sua própria natureza, nem sempre é tão simpático, tem um outro grupo de policiais dizendo que estamos cumprindo a nossa função, com aquela interação... E a farda é a mesma. Quando alguém sorri ou aplaude a banda, está aplaudindo e sorrindo para a Polícia Militar", diz. E acrescenta: "Afinal, o policial também é parte da sociedade".

Um policial como outro qualquer

Segundo o major, apesar da rotina diária de estudo e ensaios, o policial músico também é um policial como outro qualquer. "Ele tem a mesma formação do policial de tropa. Está preparado para desempenhar os mesmos serviços, e não é raro que isso aconteça", conta. Segundo ele, em ocasiões extraordinárias, como grandes eventos, os PMs músicos vão para as ruas "desarmados" de seus instrumentos. "Eu mesmo já comandei policiamento em uma Operação Verão. Mas claro que nossa missão principal é trabalhar a imagem da PM", diz.

Para cumprir essa missão, os profissionais devem ser bem preparados, e passam por uma seleção rigorosa em um concurso público, com provas de conhecimentos avançados da teoria e da prática musical. Aprovado, o candidato entra na PM como 3° Sargento.

"Nós não formamos músicos aqui dentro, até porque seria inviável. No nosso quadro, os músicos têm, no mínimo, 15 anos de estudos e prática musical", afirma o major Carlos Rosa. São profissionais de alto nível, alguns com formação superior em Composição ou Regência. Muitos compõem ou escrevem arranjos para essa formação, que tem uma importância histórica na formação musical do país.

Isso porque muitos músicos importantes no Brasil foram músicos de banda. "É o habitat natural dos músicos de sopro", diz Maurício Carrilho, um dos mais importantes violonistas brasileiros e pesquisador da história música instrumental brasileira. Para ele, as bandas – civis e militares - tiveram um papel essencial na difusão e divulgação da nascente música brasileira. "Houve uma multiplicação do número de bandas coincidindo justamente com o nascimento do choro. Além disso, há também a importância na formação de músicos e de plateias que as bandas sempre tiveram", diz.

Ouça as bandas da PM:

Banda da PMERJ celebra os 93 do bairro carioca do Grajaú

Na Sala Cecília Meireles, no RJ

Banda Sinfônica da PM no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

1 História da PMDF, vol.1, pg.51, Typografia da Polícia Militar, Rio de Janeiro, 1925

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