Brasil tem índices de violência catastróficos

ENTREVISTA/ Julio Jacobo Waiselfisz 

O Brasil lidera os índices de homicídios de jovens por arma de fogo. É o terceiro quando o critério abrange outras formas de homicídio na faixa etária entre 15 e 24 anos. Para Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência 2006, que trouxe a público esses dados, o problema do país não é a violência pura e simples. “A história da violência no país passa pelo extermínio do jovem brasileiro”, afirmou em entrevista ao Comunidade Segura.

Para o pesquisador, o Estatuto do Desarmamento e a campanha de recolhimento de armas tiveram influência na redução dos índices de homicídio entre 2003 e 2004, mas a descontinuidade das políticas públicas de controle de armas fez com que os avanços conquistados caíssem no esquecimento.

Este é o quinto Mapa da Violência. Desde sua primeira edição, em 1998, os índices de violência no Brasil não se alteraram significativamente e os jovens têm aparecido como as maiores vítimas da triste união entre excesso de armas de fogo e o que o autor chama de “cultura da violência” vigente no país. Para ele, medidas de prevenção e políticas de controle de armas poderiam mudar essa realidade.

Como foi o processo de elaboração deste estudo?

A cada dois anos lançamos novos mapas atualizando informações. A base de dados são certidões de óbitos, que são instrumentos necessários para qualquer tipo de trâmite. Estas certidões de óbito são centralizadas pelas secretarias estaduais de saúde, que enviam os dados para o Ministério da Saúde, que normalmente me envia um CD-Rom com um milhão de registros de óbitos e eu processo essas informações de acordo com o sistema internacional de classificação de doenças, que também contempla causas externas para o óbito. Nestes casos, há informações sobre o que ocasionou a morte. O Whosis (Sistema de Informações Estatísticas da Organização Mundial de Saúde) fornece a base de dados internacional e eu analiso as informações.

Qual é o critério adotado para a escolha dos países?

O critério de seleção foi único: dados posteriores a 2000. Alguns países tinham informações anteriores a isso por motivos variados e elas não serviriam como base para um estudo novo, além de dificultar o processo comparativo. Para fazer a comparação, eu preciso de dados coletados dentro do mesmo período.

Os dados analisados não são novos. Quais os destaques e contribuições deste estudo em relação a estudos anteriores como o "Mortes Matadas por Arma de Fogo" ou o “Vidas Poupadas” da UNESCO?

O estudo Mortes Matadas por Armas de Fogo foi lançado antes de eu ter acesso aos dados de 2004, o primeiro ano do desarmamento. Depois dele, publiquei uma avaliação dos resultados da campanha, quando eu trabalhei com dados preliminares fornecidos pelo Ministério da Saúde. Como houve algumas alterações, julguei que seria bom refazer a análise. O resultado foi uma ligeira alteração nos resultados estatísticos, que fica em torno de 2 ou 3 % de diferença. O Vidas Poupadas foi baseado numa projeção em relação às taxas de crescimento do número de mortes por armas de fogo. Enquanto o primeiro se referia a cerca de 5% a menos no número de homicídios, o segundo falava de algo em torno de 10%, já que considerei que não apenas o número de homicídios diminuiu, mas deixou de seguir a tendência, que era de 5% de crescimento anual nas taxas.

 

O Brasil lidera um ranking de 65 países em homicídios de jovens por armas de fogo. Na sua opinião, o que ocasiona isso?

Pesquisas feitas com jovens em escola mostraram que cerca de 40% sabiam onde obter armas de fogo. São dois fenômenos juntos, que separados não formariam um quadro tão grave. Há uma grande circulação e disponibilidade de armas de fogo no Brasil. É muito difícil saber o número exato, pois quem tem armas não declara, mas estima-se que sejam 120 milhões de armas de fogo em circulação. Nos EUA também há grande circulação de armas de fogo, mas o número de homicídios é a terça parte do que é registrado no Brasil todos os anos. O que determina essa liderança é a junção do primeiro fator com uma cultura da violência, uma disposição de matar, diante de qualquer conflito, matar o adversário.

Como avaliar a posição do Brasil (3º) no ranking de 84 países sobre homicídios de jovens?

Entre os não-jovens no Brasil, ou seja, os que têm menos de 15 anos e mais de 24, os índices de homicídios não sofreram grandes alterações entre a década de 80 e os dados atuais. Em 1980, este índice estava em 21,3 a cada 100 mil não-jovens. Este número caiu para 18,1 por 100 mil em 1990 e chegou a 20,8 por 100 mil em 2000. Já na faixa etária de 15 a 24 anos, os números já eram maiores e cresceram muito mais no mesmo período. Em 1980, o índice era de cerca de 30 homicídios a cada 100 mil jovens, em 1990 chegou a cerca de 38 a cada 100 mil jovens e em 2004 atingiu 51,7 homicídios a cada 100 mil jovens. A história da violência no país passa pelo extermínio do jovem brasileiro. Não há exatamente um problema de homicídio, mas um problema de jovens. Até que não se enfrente os problemas da juventude brasileira, que se ofereça educação, cultura, trabalho, isso não vai mudar.

 

O Rio de Janeiro lidera o ranking nacional de homicídios de jovens. Certamente o tráfico de drogas tem influência. Em sua opinião, o que as autoridades responsáveis podem fazer para solucionar o problema?

O Rio de Janeiro é o único lugar do Brasil onde a criminalidade é associada a organizações criminosas. Um estudo realizado com base nas informações sobre ferimentos à bala que chegam aos hospitais da rede Sara Kubitschek de Salvador e Brasília mostrou que cerca de 60% dos crimes são de proximidade, ou seja, a vítima possuía alguma relação com o agressor. Não conheço nenhuma pesquisa que trate especificamente desta relação, mas dada a estruturação do narcotráfico no Rio de Janeiro, o mais provável é que seja um dos poucos estados do Brasil onde o crime organizado tem maior influência nos índices de homicídio por arma de fogo do que os crimes de proximidade.

Alguns países, mesmo os que não estão em guerra declarada, vivem problemas graves que elevam os índices de homicídios de jovens, como o caso de países da América Central onde gangues juvenis estão envolvidas na violência armada. Quais as razões para o Brasil estar à frente destes países no ranking?

É o mesmo problema: o Brasil não tem conflitos religiosos, de fronteiras, de línguas e apesar disso consegue matar muito mais jovens que conflitos bélicos declarados. Isso é a cultura da violência que existe no Brasil. Países árabes, asiáticos, os demais países da América Latina e os que integravam a antiga União Soviética são países histórico e culturalmente associados à violência. São áreas que encabeçam o ranking da violência e ficam em torno do mesmo patamar estatístico.

O índice nacional de homicídios caiu entre 2003 e 2004, mas aumentou muito em relação a 1994. O que pode ter contribuído para a queda neste período?

A queda dos índices de homicídio no período entre 2003-2004 foi de 5% em números absolutos. Uma cifra significativa que eu atribuo à aprovação do Estatuto do Desarmamento e à campanha de desarmamento voluntário, uma iniciativa que custou barato e eu não entendo por que não é mais mencionada na mídia. Depois do referendo, eu não ouvi mais notícias no jornal perguntando o que acontece com o desarmamento, com o Estatuto.

Estes dados, na sua opinião, justificariam a reedição da campanha de recolhimento de armas como parte de uma estratégia para a redução do número de mortes por armas de fogo?

Nossos índices de violência, ainda hoje, depois do desarmamento, são catastróficos. Caímos um pouco, mas ainda temos 102 mortes por armas de fogo por dia. 37 mil pessoas morreram por armas de fogo em 2004. É muito mais do que se mata na guerra Israel-Palestina, no Iraque. Ainda assim, mesmo depois da população ter entregado meio milhão de armas de fogo, não se ouviu mais falar do desarmamento. O problema é a descontinuidade das políticas relacionadas a isso, ainda que tenham mostrado resultados positivos.

Saiba mais:

Violência contra crianças é tema de estudo da ONU

Controle de armas no Brasil

Na biblioteca virtual:

Crianças do tráfico: um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro

Mortes Matadas por Armas de Fogo no Brasil

Comentários

violencia domestica ou conjugal

Considero muito importante o estudo realizado,mas gostaria de saber, se do cohecimento do grupo, quantas são as mulheres, vítimas de assassinatos, fala-se em jovens do sexo masculino geralmente, entretanto não ficamos sabendo se há mulheres, e quais as causas das mortes.
obrigada, desejo sucesso.

violência

Eu gostaria de saber qual o índice de violência(morte por arma de fogo) da Cidade de Belém-Pa com relação as demais capitais do país.

Violência contra mulheres

Este estudo é muito importante para qualquer sociedade. Mas gostaria que o assunto abordassse também a violência sofridas por mulheres de todas as idades e classes sociais. Não podemos esquecer que mulheres estão morrendo, vitimadas muitas das vezes pelos seus próprios companheiros.
Por favor façam uma pesquisa sobre o assunto! Obrigado. Que Deus lhes abençoe poderosamente.

violencia

o Brasil é simplismente uma vergonha se falando de violencia,,boa parte do povo brasileiro é egoista e age como se fosse normal.O Brasil ainda é um caso a ser estudado.

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