Policiamento comunitário: evolução, não revolução

Shelly_Dupont_leg.jpg“O policiamento comunitário é uma evolução, e não uma revolução”. A afirmação é da policial canadense Shelly Dupont, chefe da Divisão de Serviços Nacionais de Polícia Comunitária da Polícia Real Montada do Canadá (RCMP), em sua apresentação no Seminário Pan-Americano de Polícia Comunitária e Segurança Cidadã, realizado de 13 a 15 de junho no Hotel Intercontinental, no Rio, e promovido pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Para Shelly, o policiamento “à moda antiga” não funciona mais: “As pessoas são presas, depois soltas, e voltam a cometer os mesmos delitos”. De acordo com ela, hoje a participação comunitária é vista como tão importante quanto a policial no controle do crime.

Assim como outros representantes estrangeiros, a policial comparou as práticas tradicionais de policiamento com as práticas comunitárias. Segundo ela, a nova abordagem substitui a patrulha aleatória, a resposta rápida e a investigação reativa e baseada na condenação pela prevenção, a resolução de problemas, as parcerias com a comunidade e a justiça restaurativa.

“A polícia comunitária é um modelo para prestação de serviços. Para obter sucesso, é preciso realinhar as estruturas e sistemas organizacionais para sustentar a filosofia. Depois, vem treinamento, treinamento e mais treinamento, mais voltado para o modelo preventivo que para o militar. É preciso ter muita coragem para ser um agente da mudança, mas vale a pena”, enfatizou. Ela destacou ainda que o papel de cada um tem que estar claro neste modelo de liderança compartilhada, e que é essencial receber instruções precisas da chefia da organização.

Shelly afirmou que, no combate ao crime, a polícia comunitária não é “boazinha”, mas procura as raízes do problema para resolvê-lo. “É preciso antever os problemas para evitá-los”, disse. Ela descreveu o modelo de resolução de problemas implantado nas delegacias, denominado pela sigla Capra: Clientes, Análise, Parcerias, Resposta e Avaliação. O sistema, multidisciplinar e interagencial, confere poder aos membros da polícia e busca administrar as expectativas da comunidade. “Não se deve fazer promessas que não se pode cumprir. Prometa menos e faça mais”, recomendou.

As prioridades estratégicas da Polícia Real Montada canadense são as comunidades aborígenes, que devem ser atendidas de forma culturalmente competente, o crime organizado, o terrorismo e a juventude. Ela conta que foram feitas diversas pesquisas com o intuito de se reduzir os crimes cometidos por jovens. Uma das estratégias de prevenção é baseada na troca de idéias pela internet, através do site interativo Deal.org.

Um bom negócio

Sean_Bair_leg.jpgNo melhor estilo americano, Sean Bair, ex-policial e atual empresário do ramo da tecnologia policial , apresentou o policiamento comunitário como “um bom negócio”. Bair, que hoje tem uma firma de software para segurança, lembrou que é importante olhar o policiamento do ponto de vista do negócio: “É dez vezes mais difícil ganhar um cliente do que perder um”, disse, lembrando que o cliente da segurança é a comunidade.

Assim como a participante do Canadá, ele expôs as mudanças da polícia: no passado, os serviços eram prestados de maneira reativa e não-científica, enquanto hoje os serviços eficientes exigem um processo sistemático de apuração das necessidades do público e sua transformação em programas e serviços para a comunidade. “O policiamento comunitário é uma filosofia que envolve o público, levando-o a cooperar com a polícia para resolver os problemas nas suas comunidades”, disse.

Bair destacou ser fundamental trocar informações e unir inteligências para se ter investigações bem-sucedidas e soluções rápidas para problemas. Ele destacou alguns atores importantes nesse processo: donos de comércios, líderes escolares e religiosos, voluntários e síndicos, entre outros.

Carabineros de Chile, parceiros da população

Alfredo_Lagos_lana_leg.jpgNuma apresentação culturalmente um pouco mais próxima à realidade brasileira, o tenente coronel Alfredo Lagos Gana apresentou ao público a bem-sucedida experiência dos “carabineros” – a polícia do Chile. A instituição é, segundo pesquisas, a terceira em nível de confiança da população, perdendo apenas para a Igreja e as rádios.

Além de explicar a aproximação da polícia com a comunidade, com relações associativas e serviços focalizados nas necessidades da população, o oficial chileno definiu o conceito de segurança cidadã que embasa a polícia comunitária: “É o conjunto de condições jurídicas, sociais, políticas, econômicas, culturais, ecológicas e de polícia que garantem o funcionamento adequado e normal da comunidade e a convivência cidadã, diante das ameaças ao seu desenvolvimento, integridade física e bens. Assim, a segurança cidadã se encarrega da prevenção social”.

A prevenção, segundo Lagos Gana, deve intervir em fatores de risco identificados como precursores de comportamentos violentos ou criminosos. Entre eles, se destacam evasão escolar, desemprego, violência familiar e o consumo excessivo de álcool e drogas. Ele enumerou atores importantes na prevenção social: família, colégio, bairro, colegas e meios de comunicação.

Outro tipo de prevenção mencionada pelo oficial chileno foi a situacional, que visa a a prevenir atos violentos e o seu temor a eles a partir da modificação da situação em que são prováveis. Para isso, disse, deve-se eliminar oportunidades, evitando deixar portas abertas, transitar por lugares sombrios, ostentar dinheiro e jóias, deixar ambientes mal-ilumidados e espaços públicos abandonados, e dificultar o delito, com alarmes, luzes, urbanismo e tecnologias como GPS em veículos.

Ele também destacou a importância da dissuasão dos delitos através da presença de policiais, câmeras e cachorros, além da proibição ao porte de armas. O oficial explicou o Plano Quadrante, que divide a cidade em áreas, assegurando maior cobertura territorial para cada área, melhora a distribuição dos recursos, diminui o tempo de resposta, facilita a atuação do policial, a supervisão e o controle.

Lagos Gana concluiu afirmando que não se deve replicar modelos sem antes fazer diagnósticos locais, já que as realidades dos países e das instituições são diferentes. Ele observou também que mudanças drásticas podem gerar resistência nas organizações e lembrou que a gestão participativa exige o comprometimento de todos e a divisão clara das responsabilidades de cada parte.

Saiba mais:

Participação comunitária na base da segurança

Policiais discutem policiamento comunitário

Em outro site:

Apresentações para download no site do Seminário Pan-Americano de Polícia Comunitária e Segurança Cidadã

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